Antes e depois do “efeito Pabllo Vittar”: a explosão da arte drag no Brasil

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A arte drag no Brasil começa a ganhar espaço a partir dos anos 1980. Na época, os performers eram conhecidos como transformistas e não havia distinção para os termos travesti e transgênero, obviamente pela ignorância generalizada da sociedade a respeito das questões de gênero. Também havia uma grande marginalização da arte, associando as artistas com promiscuidade e prostituição.

Os estereótipos, porém, ainda encontram resquícios nos dias atuais. Mas, por outro lado, a resistência cresce e se fortifica a cada dia. Nesse aspecto, Pabllo Vittar é hoje o símbolo de uma grande vitória consolidada em meio à guerra, ainda em curso, na luta pela igualdade e por respeito.

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Em julho de 2017, “Sua Cara”, clipe de Major Lazer com Anitta e Pabllo, atingiu a marca de 20 milhões de visualizações em apenas 24 horas, tornando-se o terceiro vídeo mais visto na história da plataforma.

No mesmo ano, em outubro, o prestigiado jornal britânico The Guardian publicou uma extensa reportagem com Vittar e escreveu na manchete: “Sensação pop LGBT do Brasil”. “Em um país onde 343 pessoas LGBT foram mortas em 2016, a cantora e drag queen assumidamente gay Pabllo Vittar se tornou um símbolo de resistência”, destacou trecho da publicação na época.

Pabllo Vittar vira destaque internacional no The Guardian

Na lista de feitos históricos para uma artista drag, em 2020, Pabllo Vittar foi confirmada para as edições do festival Lollapalooza no Brasil, Chile e Argentina. Porém, devido à pandemia de Covid-19, os eventos acabaram não acontecendo. A artista também baterá ponto no Coachella, em outubro de 2021, o principal festival de música e arte dos EUA. Em 2019, Vittar já havia se apresentado no evento a convite de Diplo, do Major Lazer, e Soffi Tukker. Relembre:

Mas muito antes de uma artista drag ganhar destaque internacional e ter um clipe com meio bilhão de views no YouTube, muitas outras prepararam o terreno em uma época na qual as plataformas digitais sequer existiam. Pabllo é o resultado de seu próprio talento e esforço, mas, indiscutivelmente, a sua representatividade de alto impacto na grande mídia acontece após um longo processo histórico.

Antes de Vittar começar a ganhar destaque com “Open Bar” em 2015 e de atingir o sucesso de forma meteórica em 2017, não era comum uma drag queen se apresentar em horário nobre na TV brasileira como artista do “mainstream” e muito menos ter músicas próprias com milhões de reproduções no Spotify. As drags ficavam restritas aos clubes da comunidade LGBTQIA+. Elas eram vistas como “figuras exóticas” em bailes de carnaval, quando eram chamadas de “transformistas”. Sob a luz do anonimato, muitas drags, no máximo, dublavam cantoras famosas no programa de Silvio Santos.

Muito antes de Vittar ganhar os holofotes, mais precisamente há 33 anos, Sílvio Cássio Bernardo, de 53 anos, foi um dos precursores da arte drag no Brasil com a persona Silvetty Montilla. O artista tornou-se o nome mais conhecido nacionalmente na arte drag.

Silvetty deu início à carreira participando de concursos de miss, recebendo o título de Miss Primavera de 1989, Miss Brasil em 1990, Rainha do Carnaval, Miss Cidade de São Paulo e Miss Universo. Silvetty, na verdade, nem se considera uma drag e sim um ator transformista, devido ao seu talento humorístico ímpar, que mescla improviso e stand up. Ele chegou a se apresentar em diversos meios de comunicação de renome, como Record e Rede Globo. Um de seus últimos papéis aconteceu na animação da Netflix Super Drags (Netflix, 2018), sendo Silvetty a dubladora da personagem Vedete Champagne.

De volta aos tempos atuais, após o fenômeno Vittar, a arte drag ganhou um novo patamar. Se antes o mais corriqueiro eram as apresentações em casas de show LGBTQIA+ – com performances caracterizadas, em sua maioria, pela dublagem de cantoras nacionais e internacionais –, hoje as drags não só performam, como gravam suas próprias músicas, tem milhões de seguidores, fãs, clipes com megaprodução e outros milhões de reproduções no YouTube e em outras plataformas. A seguir, o “efeito Vittar”:

Gloria Groove

Quando não está “montado”, ele atende pelo nome de Daniel Garcia. Com 25 anos de idade, ele canta desde os sete e fez parte da segunda formação do grupo Balão Mágico. Também foi ator e até hoje trabalha com dublagem (é a voz do Chase de “Patrulha Canina”, o Rico de “Hannah Montana”, o Power Ranger preto nas temporadas 20 e 21 e protagonista de “Digimon Fusion”). Com seu nome de drag queen, a rapper paulistana Gloria Groove, é uma das figuras centrais desta cena musical LGBTQIA+ atual.

Em 2018, Groove lançou o que se tornaria um dos maiores sucessos da carreira. O clipe do single solo “Bumbum de Ouro” já ultrapassa 115 milhões de visualizações no YouTube. A faixa também já foi ouvida mais de 37 milhões de vezes no Spotify.

Em 2019, “Coisa Boa”, também solo, conquistou o público. O clipe tem mais de 66 milhões de reproduções e no Spotify o single já recebeu mais de 48 milhões de plays. No mesmo ano, a artista também lançou uma parceria com Iza. Somando YouTube e Spotify, a música YoYo recebeu mais de 81 milhões de streams combinados.

Mais recentemente, Manu Gavassi convidou Gloria para a faixa “Deve ser horrível dormir sem mim”. Com mais de 15 milhões no YouTube, a música teve mais do que o dobro no Spotify e está próximo de atingir 40 milhões de execuções na plataforma.

Aretuza Lovi

Nascida na cidade de Cristalina (GO), a cantora drag queen de 30 anos já pode ser considerada veterana. O início da carreira na música aconteceu em 2012 com o lançamento de “Striptease”. A faixa de estreia veio acompanhada de um clipe, que na época teve um desempenho tímido e, atualmente, conta com 90 mil visualizações na web.

A partir de 2016, a artista começou a colher os frutos do crescimento do mercado. Nesse ano, ela e Gloria Groove lançaram Catuaba, que atualmente tem mais de 13 milhões de views no YouTube. No fim de 2017, Aretuza assinou contrato com a Sony Music, mesma gravadora de Pabllo Vittar. A partir de então, o nome da artista drag foi ficando cada vez mais forte dentro da cena pop.

Em 2018, veio “Joga Bunda”, em parceria com Pabllo Vittar e novamente Gloria Groove. Este, até agora, foi o maior sucesso de Aretuza. O clipe conta com mais de 41 milhões de visualizações no canal oficial da cantora no YouTube. No mesmo ano, ela lançou “Movimento”, em parceria com Iza. O clipe já foi reproduzido mais de 10 milhões de vezes. O último single de Aretuza, “I Love You Corote”, lançado em janeiro deste ano, conta com 1,4 milhão de visualizações.

Lia Clark

A drag de Santos se destacou em 2016 com “Trava trava”. Em 2017, se arriscou como youtuber, lançou “Chifrudo”, com a Mulher Pepita, e a polêmica “Boquetáxi”. O clipe foi restrito para menores e depois bloqueado no YouTube. A cantora ainda lançou uma versão “2.0” sem versos que parodiavam a antiga música gravada por Angélica.

Entre os maiores sucessos de Lia, destacam-se “Q.M.T.” (2018); “Bumbum No Ar” feat. Wanessa Camargo (2018); “Taca Raba” feat. Pankadon (2019); e “Terremoto” feat. Gloria Groove (2019).

Kaya Conky

Para além do eixo Rio-SP, a arte drag tem, aos poucos, se fortalecido em regiões específicas do Brasil. Kaya Conky é uma dessas artistas. Ela começou a ganhar mais projeção nas redes após experimentar um boom na sua carreira em Natal, no Rio Grande do Norte.

Em 2017, “E Aí Bebê” conquistou o público e hoje o clipe já tem mais de 9 milhões de views. No fim do mesmo ano, ela lançou “Bumbum Tremendo”, que obteve mais de 1,3 milhão de views no YouTube. Posteriormente vieram outros êxitos, incluindo parcerias, que impactaram de forma semelhante as plataformas digitais. O último trabalho de Kaya foi “Sequência do Bota”, em outubro de 2019, que ultrapassa 3,4 milhões de streams somando YouTube e Spotify.

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