Buscando estancar crise de imagem de Karol Conká, série expõe fragilidades da obra musical da rapper

A Vida Depois do Tombo é obra opaca que expõe fragilidades musicais de sua personagem

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Artista que ganhou título e persona non grata para as novas réguas que medem a construção de carreira no mercado pop, Karol Conká viu a popularidade que angariou ao longo de anos de trajetória dentro do mundo do rap se esvair após desastrosa participação na 21ª edição do reality show Big Brother Brasil, da Rede Globo.

Os embates que travou com o ator Lucas Penteado, com a atriz Carla Diaz e com o modelo Arcrebiano de Araújo riscaram a imagem da artista frente à opinião pública, que, num mutirão virtual, eliminou a participante com 99,17% dos votos, o maior índice de rejeição da história do programa em todo o mundo.

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Desgastada, a rapper curitibana iniciou processo midiático de martírio e arrependimento com o intuito não apenas de limpar sua imagem, mas de estancar a sangria comercial que lhe custou contratos e campanhas publicitárias milionárias. Cumprindo caravana em programas da Rede Globo e com trabalho intenso nas redes sociais, Conká vem preparando série de lançamentos que ajudaram o reposicionamento da carreira.

A Vida Depois do Tombo, série documental produzida e exibida pela Globo Play, é o primeiro produto pensado em estratégia para limpar a barra da artista – o próximo é disco de canções inéditas que, seja feita a justiça, já estava em processo de pré-produção antes de sua entrada no reality.

Na plataforma de streaming da Rede Globo desde quinta-feira, 29, A Vida Depois do Tombo é série lançada com intuito de passar uma borracha na imagem danificada da artista e imprimir uma nova Conká frente ao tribunal das redes sociais e da opinião pública.

E, a despeito do caráter protocolar e opaco, a série é bem sucedida ao dar alicerce para que a cantora se mostre arrependida, mas ainda uma mulher forte capaz não apenas de reconhecer seus erros, mas de aceitá-los, trabalhá-los e também olhar com orgulho para seus acertos.

Contudo, a obra peca ao ignorar ponto primordial na carreira da artista: sua música. Que pese a série de imagens de shows e participações da cantora em festivais de renome, como o Rock in Rio, a obra musical construída por Karol Conká ao longo de 10 anos de trajetória iniciada de forma independente nas mesmas redes sociais que hoje a condenam.

Em 2011, Conká jogou online, na plataforma MySpace, Promo, EP antecessor ao primeiro álbum da artista, Batuk Freak, lançado dois anos depois. Emergente no mundo do rap com som experimental que, já nos primórdios, pregava discurso de auto aceitação e autoestima frente a críticas sociais, a rapper pavimentou caminho que desaguou em sucesso popular a partir do hit Tombei (2015), produzido ao lado do grupo de DJs Tropkillaz.

Daí para frente, a artista passou a figurar em trilhas de séries e novelas da Rede Globo e iniciou projeto de escalada popular através das redes sociais e, mais tarde, na TV e em campanhas publicitárias até entrar na edição de 2021 do Big Brother em, agora óbvio, mau passo comercial.

Mau passo este que parece ainda percorrer as escolhas da artista em seu caminho de limpeza de imagem. Desde que deixou o programa, Conká pouco falou sobre música ou sobre projetos musicais, não se dispôs a cantar em programas de auditório, nem tampouco agendou lives ou o lançamento de single que lembrasse o público do sucesso radiofônico que conquistou em passado não tão distante.

No processo de retomada, a música parece ser mero detalhe aquém da importância da imagem e do discurso que a artista busca sustentar nas redes e que parece ter querido defender em sua passagem pelo reality. A necessidade de parecer uma pessoa excessivamente boa ou com um discurso que abarque o maior número de pautas que movem a sociedade contemporânea põe em xeque a real relevância da arte construída pela curitibana ao longo da última década.

E a impressão não se limita apenas à curitibana. É interessante notar que a artista, ainda que em caminho antagônico, segue os mesmos passos da colega de edição passada, a cantora Manu Gavassi. Irrelevante no mundo da música, Gavassi construiu imagem capaz de sustentar o discurso e as ações “do bem” que lhe renderam o título de “fada sensata”, mas jamais foi capaz de lhe render uma carreira sólida musical.

Ao longo de quatro episódios, A Vida Depois do Tombo fortalece essa impressão ao usar das canções apenas como um meio de mostrar que a artista conquistara público afoito a ouvir o discurso positivo de suas letras e venerar sua imagem e afronta aos padrões sociais. Conká surge como mero produto mercadológico de uma parcela ávida por um discurso de aceitação presente muito menos nas canções do que em suas ações e declarações públicas.

Longe de ser a obra definitiva que se propõe, que pese o esforço evidente das roteiristas Valéria Almeida e Malu Vergueiro e das diretoras Patrícia Carvalho e Patrícia Cupello de injetar alguma dinâmica mais ambiciosa, a série resulta em produto pré-formatado, irregular e protocolar, ressaltando a fragilidade da artista que é Karol Conká.

Idealizada para limpar a barra da rapper, A Vida Depois do Tombo é obra que até pode angariar a simpatia de parte do incoerente tribunal das redes sociais, mas joga contra o fortalecimento da obra de uma artista que, por mais que tenha se esforçado para demonstrar o contrário, tem mais a oferecer do que simples discurso de indulgência. Mas, a julgar pelos caminhos que pretende seguir – como sugerido na série -, Conká pode se tornar apenas mais uma figura irrelevante no volátil mercado da música pop. Quem viver…

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