elvis presley
O astro norte-americano Elvis Presley (FOTO: Reprodução)

(POR RAFAEL GALÁN) Em 26 de junho de 1977, prestes a terminar o que seria seu último show, prestes a apresentar a sua última música na frente de uma plateia, Elvis Presley era um homem de 42 anos, incapaz de articular uma única palavra coerente, atolado em depressão intermitente e meio grogue do coquetel prescrito para uma combinação de hipertensão e uma longa lista de doenças cardíacas. Frases desconexas saíam de sua boca e, como um bebê, ele se divertia brincando com os dedos, surpreso com seu toque, sua espessura, seu cheiro. O público, formado por 18.000 almas, sentados do outro lado, entendeu e esperou, paciente pelo milagre. Elvis começou a cantar e mais uma vez se transformou. Sua voz era impecável, perfeita, mítica. 

Elvis, como um anti-herói de Norman Mailer, prestes a explodir em roupas que não se encaixavam, como um salame kosher de Nova York, mas ao mesmo tempo real, digno, maravilhoso como uma drag queen moderna, disposta voar a qualquer momento. Assim como milhões de crônicas antes e como milhões de crônicas depois que eles esboçaram e esboçarão do artista para todo o sempre. Amém. Naquele momento, naquele momento mágico, Elvis foi transformado pela última vez.

O show começou às 20:30 no Market Square Arena, em Indianápolis. As portas se abriram religiosamente – neste caso, talvez em um sentido menos metafórico do que o habitual – às 19:00. Elvis não subiu ao palco antes das 22h. Às oito e meia, um comediante, vários grupos de soul e um grupo de bluegrass entretinham um público paciente que sabia perfeitamente bem que eles tinham que esperar e que a espera valeria a pena. Os ingressos eram de US$ 15 (cerca de US$ 60 na taxa de câmbio atual, mas considerando que US$ 60 em 1977 eram infinitamente mais de US$ 60 agora). Os próximos 80 minutos foram gloriosos … enquanto cantavam. Inclusive quando cantou ‘Bridge over troubled waters’ lendo a letra da música em uma página, fez mágica com sua voz, como se fosse um playback perfeito. O resto do show parecia um sainete, um grotesco, com Elvis divagando todas as vezes. Enquanto isso, os vendedores de lembranças que acompanhavam o show tentavam desesperadamente levar as pessoas a comprar um pedaço de seu herói em pôster ou plástico barato. 

Elvis Presley (Foto: Reprodução/Internet)

A questão que surge entre toda essa bobagem é: por quê? Por que Elvis precisava subir ao palco assim? Que as pessoas se lembrassem dele mais como uma caricatura que ele tinha sido e não como um dos grandes mitos americanos do século XX. Após a autópsia, descobrimos que, nos últimos dias, ele tinha o coração aumentado e um intestino desproporcionalmente grande – o que lhe causou uma dor terrível que explicava por que ele começou a chorar em shows, ele sofria de hipertensão e mal dormia, passando pela vida como personagem de Al Pacino em ‘Insomnia’, entrando e saindo de uma depressão intermitente. O público só via, de fora, como o artista engordava e engordava, e o culpavam por uma vida de excesso e sucesso. Mas, apesar de tudo, tinha um apelo inconfundível. E o gerente dele, Tom Parker sabia disso. E, acima de tudo, ficou claro para ele que tínhamos que continuar ordenhando a vaca leiteira dourada. Tom Parker criara Elvis e, caramba, iria espremer cada última gota dele.

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Parker teve a ideia de transformar essa turnê de Elvis em um produto comercial de televisão. Ele estava filmando os shows como um especial da Netflix, com a ideia de aproveitar as extensões do artista, que sabia perfeitamente que ele estava indo ladeira abaixo. Estamos falando do mesmo homem que ao longo da vida impediu Elvis de se apresentar fora dos Estados Unidos (ele só permitiu que ele fizesse três shows no Canadá em 1957, mas como é a América do Norte, isso não conta). Estamos falando do Tom Parker, que foi descoberto anos depois, que era um psicopata diagnosticado capaz de ganhar 130 quilos para evitar ser recrutado para lutar na Segunda Guerra Mundial.

As filmagens dessa última turnê são terríveis. Foram transmitidas na televisão após a morte de Elvis Presley na CBS, mas apenas uma vez e dali passou a inchar as prateleiras de recordações do artista. Há apenas um pequeno momento de glória nesse especial, quando ele toca a melodia ‘Unchained’. É incrível como ele saboreia a letra da música, como ele leva tempo, como se fosse o rei:

Talvez essa tenha sido a última grande música de Elvis. A lenda conta que horas antes de morrer, se sentou ao piano de sua mansão de 3754 no Elvis Presley Boulevard e tocou “Blue eyes crying in the rain”:

(POR RAFAEL GALÁN)