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A cantora norte-americana Beyoncé (FOTO: Reprodução)

Do site Staypop no Medium: Sob fortes denúncias de sexismo e racismo por parte da ex-presidente da academia musical, a edição do Grammy deste ano teve três dos cinco finalistas a Álbum do Ano sendo negros: as cantoras H.E.R e Lizzo, com seus álbuns I Used to Know Her e Cuz I Love You, respectivamente, e o rapper Lil Nas X, com a obra 7. O prêmio, contudo, acabou ficando com a adolescente caucasiana Billie Eilish o que acabou causando um burburinho nas redes sociais, com internautas apontando um suposto preconceito estrutural por parte dos votantes da premiação musical.

Deborah Dugan foi demitida no dia 17 de janeiro e depois deflagrou denúncias de racismo e sexismo da indústria musical/ Crédito: Getty Images

A primeira edição do Grammy aconteceu em 1959, tendo Ella Fitzgerald como sua primeira vencedora nas categorias ‘Melhor Performance de Jazz Individual’ e ‘Melhor Performance Pop Vocal Feminina’, as duas pelo álbum ‘Ella Fitzgerald Sings The Irving Berlin Songbook’.

Nestas cerca de 60 edições, somente 12 artistas negros venceram o prêmio mais almejado ‘Álbum do Ano’, sendo que três destes foram para o músico Stevie Wonder.

Já a primeira mulher vencedora do prêmio foi Judy Garland no ano de 1961, enquanto a primeira mulher negra a conquistar a honraria só acabou acontecendo em 1992. Vale lembrar que neste ínterim tivemos nomes que entrariam pra história da música mundial como Nina Simone, Aretha Franklin e a própria Ella Fitzgerald.

Um dos argumentos comumente mais utilizados pelos os que apontam racismo por parte dos votantes do Grammy atende pelo nome de Beyoncé. A cantora teria sido menosprezada ao sair derrotada do prêmio de ‘Álbum do Ano’ por três vezes.

Beyoncé, vale lembrar, é a recordista absoluta em número de indicações na história do Grammy (60 indicações). Mesmo assim discos que ajudaram a definir e moldar os caminhos da indústria musical como Beyoncé (2013) e Lemonade (2016) não foram premiados na categoria “Álbum do Ano” nos anos em que foram indicados. Sabe porque as músicas são lançadas mundialmente às sextas? Por causa de Beyoncé. Pode perguntar. A esposa de Jay-Z, na verdade, nunca foi premiada nesta que é considerada uma das principais da cerimônia que é a honraria máxima da indústria musical.

Vale lembrar que em 2017, o Grammy Awards foi massacrado por críticos musicais e internautas por ignorar em indicações e premiações principais, os álbuns ANTI da Rihanna e Lemonade, de Beyoncé. Com toda a repercussão das denúncias de racismo em janeiro, internautas resgataram recentemente um vídeo de Adele discursando emocionada ao receber o prêmio de Álbum do Ano pelo último disco “25”.

Na principal categoria da premiação, Beyoncé concorreu ao título com ‘I Am… Sasha Fierce’ (2010), ‘Beyoncé’ (2015) e ‘Lemonade’ (2017), discos que causaram grande impacto na indústria na época dos seus lançamentos, mas que perderam respectivamente para ‘Fearless’ da Taylor Swift, ‘Morning Phase’ do Beck e ‘25’ da Adele. Três artistas caucasianos que inclusive possuem outro álbuns ainda mais elogiados pela crítica e também com maior vendagem.

Proponho que deixemos de lado por um instante Beyoncé, relevando os fatos atuais, e procurando descobrir como o passado do Grammy reflete no futuro da premiação mais prestigiada da indústria musical. Vamos relembrar a história das três artistas negras que venceram o prêmio de ‘Álbum do Ano’ no Grammy Awards.

Natalie Cole, ‘Unforgettable… with Love’ (1992)

Natalie Cole foi uma artista de grande prestígio nos anos 70, o que acabou lhe dando inclusive um prêmio de ‘Artista Revelação’ em 1976. Depois de experimentar alguns fracassos pontuais na carreira durante os anos 80, Cole encontrou sucesso na década seguinte, ao lançar o disco ‘Unforgettable… with Love’, regravando clássicos da música estadunidense e fazendo covers de seu pai, Nat King Cole.

King Cole, vale lembrar, foi um pianista de jazz e ativista norte-americano que, apesar de sofrer ataques verbais e físicos no decorrer do movimento dos direitos civis nos EUA, acabou entrando para a história dos Estados Unidos como o primeiro apresentador de TV negro de um programa de variedades. Sua carreira e legado foram inclusive homenageados e devidamente reconhecidos pelo Grammy, 25 anos depois da sua morte, com a honraria Grammy Lifetime Achievement Award.

Naquela que foi a 34ª edição da premiação, Natalie alcançou os prêmios de ‘Álbum do Ano’, por ‘Unforgettable… with Love’, além de ‘Canção do Ano’ e ‘Gravação do Ano’ com “Unforgettable”, regravada num dueto com seu ilustre pai.

Natalie Cole nunca mais chegou a ser indicada para nenhuma das categorias principais, porém passaria os anos seguintes alternando suas 21 indicações totais nas categorias Pop, R&B e Jazz, com somente nove vitórias. A sua não indicação posterior abre espaço para a provocação: se a artista não tivesse sido amparada criativamente pelo ilustre pai através de covers ela conseguiria ter sido a primeira negra a ser indicada à premiação?

Whitney Houston, ‘The Bodyguard’ (1994)

A trilha-sonora de ‘The Bodyguard’, onde Whitney Houston atuou pela primeira vez como protagonista, foi um verdadeiro fenômeno comercial e um sucesso tão grande que veio a se tornar um dos maiores fenômenos em vendas na história da indústria fonográfica.

Laureada na 36ª edição da premiação, Whitney venceu a categoria ‘Álbum do Ano’, além de ‘Gravação do Ano’ e ‘Melhor Performance Pop Vocal’ por “I Will Always Love You”, regravação de uma balada com toques country lançada por Dolly Parton ainda em 1974. Trabalhando com alguns dos maiores produtores da época (Clive Davis, Babyface, L.A. Reid), Whitney competia com ‘Kamakiriad’ do Donald Fagen, ‘River of Dreams’ do Billy Joe, ‘Automatic for the People’ do R.E.M. e ‘Ten Summoner’s Tales’ do Sting.

Whitney Houston tinha sido indicada anteriormente ao prêmio de ‘Álbum do Ano’ em 1986 por ‘Whitney Houston’ e chegou a ser indicada outras duas vezes por ‘Whitney’ (1988) e ‘Waiting to Exhale’ (1997). No decorrer da sua carreira, foram 26 indicações ao Grammy que lhe deram sete vitórias. Há de se notar contudo, que a trilha de O Guarda-Costas foi parte de um projeto cinematográfico altamente rentável, o que abre espaço para a provocação: caso as músicas não fizessem parte do filme elas teriam sido premiadas? A julgar pelos outros prêmios Álbum of The Year dos demais anos que nunca foram entregues a Whitney Houston, muito provavelmente não.

Lauryn Hill, ‘The Miseducation of Lauryn Hill’ (1999)

Da mesma forma que as duas cantoras anteriores, a vitória de Lauryn Hill também teve seus detalhes particulares. No aniversário de 40 anos do Grammy Awards, a intérprete e rapper acabou se tornando não somente a terceira artista negra a vencer o prêmio de ‘Álbum do Ano’ (com apenas 23 anos!), como também a primeira artista de hip/hop a vencer na categoria principal da prestigiada premiação.

No decorrer da 41ª edição da premiação, Lauryn conquistou feitos que entrariam pra história da premiação, se consagrando como a artista feminina com o maior número de indicações e vitórias numa mesma edição, vencendo nada menos que cinco dos 10 prêmios que concorria (incluindo ‘Artista Revelação’). ‘The Miseducation of Lauryn Hill’ naquele ano tinha forte concorrência e competia naquele ano contra o icônico ‘Ray of Light’ de Madonna além de ‘The Globe Sessions’ da Sheryl Crow, ‘Version 2.0’ do Garbage e ‘Come On Over’ da Shania Twain.

Em sua curta carreira solo, que conta com somente um álbum em estúdio, Lauryn Hill conquistou 19 indicações ao Grammy com oito vitórias, se alternando entre as categorias Pop, Rap e R&B. A artista também detém uma nomeação para ‘Álbum do Ano’ em 1996 por ‘The Score’ do Fugees e uma outra no ano de 2000 por sua participação no hit ‘Supernatural’ do guitarrista Santana.

Já nos quase últimos 20 anos da premiação, em somente duas edições do Grammy, 2001 e 2011, não houve nenhum artista negro concorrendo em ‘Álbum do Ano’. Porém, mesmo assim, o último músico afro-descendente que venceu foi Herbie Hancock, em 2008 trazendo uma compilação de vozes e diferentes artistas no disco ‘River: The Joni Letters’. O projeto conta com vozes negras como Tina Turner, Corinne Bailey Rae mas, traz artistas caucasianas como Norah Jones também.

Outro detalhe que chama a atenção da história da premiação é que a única ocasião onde o número de artistas negros indicados acabou sendo maior que os artistas brancos foi no ano de 2005, no ápice do R&B, quando ‘Genius Loves Company’ do vencedor Ray Charles, ‘The Diary of Alicia Keys’ de Alicia Keys, ‘Late Registration’ de Kanye West e ‘Confessions’ do Usher, concorreram contra o disco de rock ‘American Idiot’ do Green Day.

E já que citamos Kanye West, o músico que entraria pra história do Grammy, com o “barraco” mais histérico da premiação ao contestar a derrota de Beyoncé em função da vitória de Taylor Swift, é interessante notar como o próprio rapper traz alguns dados e estatísticas que apontam de maneira urgente os problemas étnicos dos votantes da premiação.

Recordista absoluto em vitórias e indicações, Kanye West concorreu ao prêmio de ‘Álbum do Ano’ nada menos que sete vezes, sendo três por seus discos e as outras quatro como produtor de hits de Alicia Keys, Mariah Carey, The Weeknd e Drake. Só que em tal categoria o músico norte-americano não venceu em nenhuma oportunidade. O mais lógico a se pensar é que Kanye West fosse então o maior vencedor em ‘Melhor Álbum de Rap’. Porém este não é o caso: esse título pertence ao rapper caucasiano Eminem.

Na cerimônia de 2017 da premiação, onde toda a discussão racial veio à tona principalmente pelas derrotas de Beyoncé, Kanye West conquistou outra façanha histórica, quando ele e Rihanna tornaram-se os artistas com o maior número de indicações (oito) numa mesma edição, sem conquistarem nenhuma vitória. O recorde em número de indicações anterior pertencia aos três artistas negros Stevie Wonder (1983), India.Arie (2002) e Kendrick Lamar (2014). Imagina ser um dos maiores nomes da indústria, ter um número tão expressivo de indicações, sair de casa e acabar voltando sem nada?

Diante de tantos flagrantes quase inquestionáveis inclusive advindos de uma ex-membro da alta cúpula da premiação, a Academia musical chegou a enviar uma nota em resposta às acusações de preconceito para a revista Variety comentando sobre as investigações, mas se abstendo de abordar as acusações de fraude no processo de escolha dos indicados e vencedores.

É curioso que a Sra. Dugan nunca deixou claras essas graves alegações até uma semana depois que as queixas legais foram feitas contra ela pessoalmente por uma funcionária que alegou que a Sra. Dugan havia criado um ambiente de trabalho tóxico e intolerável e engajado em conduta abusiva e de bullying. Quando a Sra. Dugan falou sobre seus incômodos ao RH, ela especificamente instruiu o RH a ‘não fazer nada’ em resposta. De qualquer forma, nós imediatamente iniciamos investigações independentes para rever tanto a potencial falha de conduta da Sra. Dugan quanto as subsequentes alegações. Ambas as investigações continuam em curso. A Sra. Dugan foi afastada administrativamente apenas depois de oferecer seu posto e demandar US$ 22 milhões da Academia, que é uma organização sem fins lucrativos. Nossa lealdade sempre será aos 25 mil membros da indústria musical. Nós sentimos muito que a maior noite da música esteja sendo roubada deles devido às ações da Sra. Dugan e estamos trabalhando para resolver esta questão o mais rápido possível”.

E a pergunta diante de tantas evidências urgentes de racismo por parte da indústria musical, a pergunta que fica é: os protestos raciais nos Estados Unidos e no mundo serão suficiente para dar um chacoalhão também nos votantes da principal premiação musical do mundo?