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O cantor e compositor Djavan (FOTO: Reprodução)

Naquele ano de 1987, rádios do mundo inteiro não paravam de tocar uma certa balada, “So you say”, gravada pelo sofisticado e prestigiado quarteto vocal americano The Manhattan Transfer. Tratava-se de uma genial versão – que pegava a sonoridade exata do primeiro verso em português, “Só eu sei”, e achava seu equivalente sonoro em inglês, “So you say” – de “Esquinas”, canção lançada em português por Djavan no álbum “Lilás”, três anos antes. “So you say” era uma das faixas de “Brasil”, disco que o Manhattan Transfer gravou naquele ano exclusivamente com canções brasileiras, mais da metade do repertório composto por músicas de Djavan, entre outras de Gilberto Gil, Ivan Lins e Milton Nascimento.

Em 87, Djavan já estava, portanto, nesse seletíssimo grupo de compositores brasileiros que, de fato, tinham presença no cobiçado mercado americano de música – e, por conseguinte, no mercado mundial, em trilha aberta 20 anos antes por Tom Jobim. Isso pelo menos desde que a diva do jazz Carmen McRae fizera sucesso em 1982 com uma certa “Upside down”, na verdade uma versão do samba “Flor-de-lis”. E que o próprio Djavan passou a gravar por iniciativa da CBS brasileira discos nos Estados Unidos, mesmo cantando em português: o megassucesso “Luz” (1982), no qual teve até participação de Stevie Wonder em “Samurai”, como uma espécie de boas-vindas ao mercado americano, dada pelo seu principal artista; e o também bem sucedido “Lilás” (1984) – ambos somados venderam mais de um milhão de cópias somente no Brasil.

Depois de gravar seu terceiro disco nos Estados Unidos, o sofisticado “Não é azul mas é mar”, produzido pelo mesmo mago da soul music Ronnie Foster, de “Luz”, e acompanhado principalmente por músicos americanos, chegou-se à conclusão que havia chegado a hora de o próprio Djavan cantar suas músicas em inglês.

“Foi uma ideia da gravadora” recorda Djavan. “E com a qual concordei. Já havia gravado o “Não é azul mas é mar” em Los Angeles, em português, e aí, no fim do ano de 87, voltei para gravar três versões em inglês. O meu único pedido foi de que as versões buscassem ao máximo respeitar a sonoridade das canções originais. A minha música é muito marcada pelas palavras que escolho para botar nas melodias, é muito ligada à língua.”

Foto: Divulgação

Assim nasceu “Bird of Paradise”, disco idealizado pela CBS para os mercados americano e internacional, basicamente as canções de “Não é azul mas é mar”, mas três delas com letras em inglês, regravadas com os mesmos arranjos, sobre as mesmas bases instrumentais. São elas: a canção-título ,“Bird of paradise”, versão de “Navio”, primeira parceria de Djavan com seus filhos Flavia Virginia e Max Viana; “Sthephen’s  Kingdom”, versão da mais naturalmente internacional das faixas do disco, “Soweto”, canção de protesto de Djavan contra o regime do Apartheid que ainda imperava na África do Sul em 87; e “Miss Susanna”, a versão preferida do próprio Djavan, para a sua canção de amor “Florir”.

Na última sexta-feira, 27 de novembro de 2020, a Sony Music lançou em todas as plataformas o álbum “Bird of Paradise”, completando toda a discografia de Djavan disponível no mundo digital, dentro do projeto da gravadora de digitalização de todo o seu catálogo.

A grande atração, mesmo para os fãs mais dedicados, são justamente as três faixas cantadas por ele em inglês. “Miss Susanna” talvez seja a preferida do compositor justamente porque pega o espírito do conteúdo da letra original de Djavan – a descrição de um desejo amoroso imenso e ausente – e traduz numa sonoridade própria da língua inglesa, sem tentar “traduzir” palavra por palavra, personificando o desejo abstrato na personagem Miss Susanna. Escrita pelo também cantor e compositor Brock Walsh – já então responsável por várias das versões feitas para o álbum do Manhattan Transfer – é uma canção de fato em inglês, cantada aliás confortavelmente por Djavan. Tão confortável, que na época do lançamento recebeu comentário favorável do jornal “Los Angeles Times”: “Suas interpretações em inglês são suaves e não apresentam um sotaque forte”.

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O mesmo Brock Walsh enfrentou o desafio de verter “Soweto” também pelo espírito da canção, criando “Stephen’s Kingdom”, com a mesma melancolia em relação à África  do Sul do apartheid e a mesma esperança de um futuro melhor: “O povo quer florescer/E ganhar a vida”, diz o original em português, “There’s no conquering the might/Of tomorrow’s dream”, reafirma a versão, mantendo a ideia básica da canção, o sonho de um futuro melhor, mas na sonoridade específica de cada língua.

Também cantor e compositor com imensa discografia, e não apenas versionista, Michael Franks foi o responsável por transformar “Navio” em “Bird of Paradise”, aproveitando das metáforas de natureza da canção original para colocar a mulher amada numa espécie de paraíso tropical, típico do imaginário estrangeiro sobre o Brasil.

O objetivo da CBS com “Bird of Paradise” – e o título, literalmente “Pássaro do paraíso”, diz muito disso – era ampliar a presença de Djavan no mercado internacional, sem perda de suas características brasileiras. “Eu quero cantar no mundo inteiro com a mesma facilidade”, dizia Djavan à imprensa americana na época. “Se alguém entende só a música e não as letras, a comunicação fica limitada”, ponderava. Tanto que, se apenas três das dez faixas do álbum eram cantadas em inglês, as outras sete canções vinham com títulos e traduções literais para o inglês no encarte.

Gravado no verão americano de 1987, no mítico Ameraycan Studio, de Los Angeles, o álbum original “Não é azul mas é mar” é um dos discos mais sofisticados de Djavan e já tinha características cosmopolitas com “Soweto” na abertura e canções como “Real”, parceria com o japonês Tetsuo Sakurai. De alguma forma, sua sonoridade era uma síntese, um aperfeiçoamento de suas outras experiências americanas, combinando um pouco do espírito soul de “Luz” com o uso das batidas eletrônicas de “Lilás”. O grande sucesso radiofônico na época foi “Dou-não-dou”. E a obra-prima de uma safra de belas canções talvez seja “Bouquet”, uma balada conduzida na gravação pelo violão de Djavan, com direito ao piano de George Duke e orquestra de cordas escritas por George del Barrio, luxos de se gravar em Los Angeles.

O lançamento de “Bird of Paradise” nas plataformas digitais é, mais do que conhecer as gravações em inglês de Djavan, uma oportunidade de revisitar essa fase talvez não muito lembrada de sua produção musical, emparedada entre os sucessos da primeira  fase de sua música, marcada por “Luz”, e pelo imenso sucesso que faria nos anos seguintes com canções arrasa-quarteirão como “Oceano”(do disco de 1989).

Não que “Não é azul mas é mar” tenha vendido pouco, pelo contrário, foi Disco de Ouro com mais de cem mil cópias, teve críticas positivas no Brasil e no mundo. Mas era como se ele estivesse em transição, como se nestas canções Djavan preparasse o futuro de sua música, estabelecendo um estilo pessoal cada vez mais sofisticado, simbolizado nos verso de “Bouquet” que resumem o espírito do trabalho (e o desejo talvez nem tão explícito para ele de ser ouvido no mundo): “O que faz o seu olhar/Pra ser assim?/Não é azul mas é mar/ De tanto brilho/Me deixa também brilhar”.

Que Djavan brilhasse não apenas no Brasil, aos olhos do mundo, era a intenção de “Bird of paradise”, plenamente alcançada pois, desde então, além de continuar a ser um dos compositores brasileiros mais gravados no exterior, Djavan faz imensas turnês pelo mundo inteiro, a cada lançamento, tornou-se o tal pássaro que voa e canta por aí, desde o paraíso, se não real, pelo menos o das canções.