elza soares
A cantora carioca Elza Soares (FOTO: Reprodução)

Dona de uma portentosa discografia desde que deslanchou em 1959, a cantora Elza Soares, em sua breve passagem pela CBS (atual Sony Music) registrou apenas dois LPs e um compacto simples, porém preciosos: em 1980, “Elza Negra, negra Elza” e, no ano anterior, o raro “Senhora da terra”, além do compacto “Hoje tem marmelada” / “Põe pimenta”.

Dando continuidade às comemorações dos 90 anos da incansável artista, completos no último dia 23 de junho, os dois últimos que ainda não estavam disponíveis, ficarão ao alcance do público em todas as plataformas digitais de streaming a partir deste dia 3 de julho. Trata-se de mais uma ação do marketing estratégico da Sony Music Brasil, que vem muito oportunamente digitalizando seu catálogo, restaurando tapes analógicos e projetos gráficos originais de seus principais artistas.

Se o álbum “Elza negra, negra Elza”, produzido e arranjado por João de Aquino, já se encontrava disponível em streaming com uma sonoridade entre o samba tradicional (“Como lutei”, “Artimanha”), o samba endiabrado pop e/ou jazzístico (“Cobra cainana”, “É isso aí” e “O porteiro me enganou”), bossa nova (“Fim de noite”), canções de atmosfera afro (“Timbó”, “Samba do Mirerê/ Capitão do mato”) e até uma embolada (“Olindina”), as maiores surpresas, de fato, aparecem neste “Senhora da Terra”, que apesar de pouco conhecido, merece ser redescoberto. Ostentando o auge de sua maturidade vocal, a cantora abre o álbum entoando a sarcástica “Põe pimenta” (Beto Sem Braço/ Jorginho Saberás), com uma ostensiva crítica social, que à época ganhou até um hilariante clipe em televisão, com a cantora fantasiada de cozinheiro munida de um imenso bigode: “Põe pimenta, malagueta/ Põe pimenta que é pra ver se o povo aguenta!”.

A segunda faixa é a sexy “Coração vadio”, dos baianos Edil Pacheco e Paulinho Diniz, em que a cantora deita e rola nos improvisos vocais guturais, que só ela foi capaz de fazer na história da música brasileira. Segue “O morro”, raríssima parceria dos saudosos Mauro Duarte e Dona Ivone Lara, sobre as agruras da vida em meio à rotina violenta dos morros cariocas – desgraçadamente ainda muito atual: “Tentando por todos os meios/ Meios pra sobreviver/ Num local onde a morte é o caminho menos mal/ Juro não vou desistir/ mesmo se ninguém me socorrer/ Apesar de saber que a luta é um tanto desigual”.

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“Exaltação ao Rio São Francisco” (Waltinho/ Zezé do Pandeiro/ João Leonel) é a única regravação do álbum, mesmo assim bastante desconhecida, do samba-enredo que a escola Unidos dos Passos, de Juiz de Fora, havia desfilado no carnaval de 1977. O enredo discorria sobre a transposição do nosso rio mais famoso, que atravessa o coração do país, o São Francisco, quase trinta anos antes da Mangueira se valer do mesmo tema, o que se deu apenas em 2006: “Ei, ei, vaqueiro, é hora de passar/ Sacudindo o boi cansado para a boiada se salvar”.

As raízes afro-religiosas aparecem no samba “Afoxé” (Heraldo Farias/ João Belém) contrastando com o mais dolente “Maria Pequena” (Guaracy de Castro/ Roberto Nepomuceno), sobre “a primeira porta estandarte da escola de samba” que deu à luz em meio a um desfile na avenida. Por sua vez, “Abertura”, de autoria da cantora, é um samba faz referência à abertura política naquele ano de 1979, quando o AI-5 finalmente havia caído e a anistia aos exilados políticos se concretizou: “Abre a porta/ Abre o peito, abertura/ Linha fraca, linha forte, linha dura”.

“Alegria do povo” (Luís Luz/ Ari do Cavaco) é um samba animado homônimo ao que a cantora gravaria seis anos depois em tributo a seu ex-marido então falecido, Mané Garrincha. Este, entretanto, não tem nada de melancólico, é uma elegia ao próprio ritmo. Também autorreferente,“O carnaval” (Gerson Alves/ Valentim) já sinalizava as transformações nas estruturas dos desfiles das escolas e o quão era importante o samba como uma cultura negra de resistência (em 2003 ela o regravaria no CD “Vivo feliz” com o nome de “Lata d’água”): “Samba mandou me dizer/ Que precisa de tempo pra pensar/ Ou mudar a cadência do samba do morro/ Ou resolver mudar o morro de lugar”. Da mesma dupla de autores, e de forma mais ostensiva que na faixa 2, “O morro”, reaparece o tema da violência crescente nos morros cariocas – aliás, antecipando o que Bezerra da Silva faria nas décadas seguintes, de 80 e 90 –, em “Vê só malandragem”: “Alerta no morro é sujeira geral/ Otário vira cavalo de pau”.

O álbum é encerrado com composições de grandes baluartes da música brasileira. “Paródia do consumidor” trazia a festejada dupla Wilson Moreira e Nei Lopes, que naquele mesmo ano de 1979 daria à Alcione o hit “Gostoso veneno”, e “Senhora liberdade” à Zezé Motta. Esse samba, no entanto, remete à irreverência e ao sarcasmo das duas primeiras faixas deste álbum, “Põe pimenta” e “Coração vadio”, com a cantora fazendo troça nos versos: “Só chiar não dá/ A lei está a nosso favor/ Vamos virar a mesa/ Em defesa do consumidor”. Por fim, “Barraquinho”, do craque dos carnavais e também do sambalanço, João Roberto Kelly, autor do terceiro grande sucesso da sambista, “Boato”, nos idos de 1960, desta vez comparecia com mais um samba gaiato que, a exemplo da gravação citada, Elza imitava a cantora paulista Isaurinha Garcia nos versos: “Eu sou aquele barraquinho de madeira/ Que ainda vive pendurado lá no morro de Mangueira/ Você que é cobertura de Ipanema/ Não escuta os meus anseios/ Nem resolve os meus problemas”.

A cozinha instrumental do álbum não poderia ser melhor. Só grandes músicos de samba: Wilson das Neves e Juquinha (bateria), Dino 7 Cordas (violão), Neco (violão 6 cordas e cavaco), Jaime Araújo (flauta), Geraldo (tumbadora) e As Gatas no coro, além de vocal, solos de violão de 6 cordas do maestro Luiz Roberto, que assina os arranjos juntamente com o maestro Nelsinho. A percussão ficou a cargo de CordinhoLunaEliseuMarçalRisadinha, grupo Pandeiros de Ouro e Zequinha.

No mesmo ano de 1979, Elza Soares lançou um compacto com a já mencionada “Põe pimenta” e uma regravação do belíssimo samba-enredo da Portela do ano anterior, “Hoje tem marmelada”, do recém-falecido David Corrêa, com Norival Reis e Jorge Macedo, tendo o circo como tema, agora também disponibilizada em streaming: “Como é doce/ Ser criança outra vez/ E me atirar nos braços da alegria/ Quero me perder na minha imaginação/ E brincar na ilusão”.

Com isto a Sony Music contribui de forma expressiva para a comemoração pelas nove décadas bem vividas da cantora, que desde os anos 1980 já ensaiava viradas estéticas e finalmente em 2015 radicalizou, chegando à juventude com um trabalho audacioso, renovando seu som, cada vez mais arrojado, agora acumulando cada vez mais a função de uma verdadeira ativista política, porta-voz das pautas identitárias mais pertinentes do mundo contemporâneo – da negritude, da mulher e dos LGBTQI+s. Viva Elza Soares, a nonagenária de alma mais jovem e inquieta da música brasileira!