Gilberto Gil revela como compôs “Cálice” após não ser creditado na live de Maria Bethânia

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Neste domingo (14), Gilberto Gil usou o Twitter para revelar como aconteceu o processo de escrita da letra de “Cálice” após não ser creditado como parceiro de Chico Buarque na live de Maria Bethânia, que foi transmitida no último sábado pela Globoplay.

A música foi escrita por Chico e Gil em 1973, durante a ditadura militar, mas devido ao seu conteúdo de denúncia e crítica social, foi censurada, sendo liberada e lançada apenas cinco anos depois, em 1978. A faixa se tornou um dos símbolos mais famosos de resistência ao regime militar.

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Confira o relato de Gilberto Gil

“Era semana santa e marcamos um encontro no apartamento dele, na Rodrigo de Freitas (lagoa referida por ele na letra). Pensei em levar alguma proposta e, um dia antes me sentei no tatame, onde eu dormia na época, e me pus a esvaziar os pensamentos circulantes para me concentrar.

Como era sexta-feira da Paixão, a idéia do calvário e do cálice de Cristo me seduziu, e eu compus o refrão incorporando o pedido de Jesus no momento da agonia.

Em seguida escrevi a primeira estrofe, que eu comecei me lembrando de uma bebida amarga chamada Fernet, italiana, de que o Chico gostava e que ele me oferecia sempre que eu ia a sua casa.

“No sábado não foi diferente: ele me trouxe um pouco da bebida, eu lhe mostrei o que tinha feito. Quando, cantando o refrão, cheguei ao ‘cálice’, no ato ele percebeu a ambiguidade que a palavra adquiria, e a associou com ‘cale-se’, introduzindo na canção o sentido da censura.

Depois, como eu tinha trazido só o refrão melodizado, trabalhamos na musicalização da estrofe a partir de idéias que ele apresentou. E combinamos um novo encontro.

“Ele acabou fazendo outras duas estrofes e eu mais uma, quatro no total, todas em oito decassílabos. Dois ou três dias depois nos revimos e definimos a sequência.

Eu achei que devíamos intercalar nossas estrofes, porque elas não apresentavam um encadeamento linear entre si. Ele concordou, e a ordem ficou esta: a primeira, minha, a segunda, dele; a terceira, minha, e a última, dele.

Na terceira, o quarto verso e os dois finais foram influenciados pela idéia do Chico de usar o tema do silêncio. O termo, alías, já aparecia na outra estrofe minha, anterior: ‘silêncio na cidade não se escuta’, quer dizer: no barulho da cidade, não é possível escutar o silêncio.

Quer dizer: não adianta querer silêncio porque não há silêncio, ou seja: não há censura, a censura é uma quimera; além do mais, ‘mesmo calada a boca, resta o peito’ e ‘mesmo calado o peito, resta a cuca’: se cortam uma coisa, aparece outra.

Aí, no dia em que fomos apresentar a música, desligaram o microfone logo depois de termos começado a cantá-la. Tenho a impressão de que ela tinha sido apresentada à censura, tendo sido recomendado que não a cantássemos, mas fizemos uma desobediência civil e quisemos cantá-la.”.

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