Hebert Neri
O músico Hebert Neri (FOTO: Divulgação)

Não é raro ouvir nas rádios, nos bares e nas ruas a música brasileira tocando em Portugal. É possível ouvir desde gêneros musicais como o funk até o sertanejo universitário, passando pela MPB, pelo pop e até mesmo pela música romântica de Roberto Carlos. 
Por esse motivo, os maiores artistas do Brasil são figuras frequentes nos maiores festivais de Portugal, cantando os seus maiores sucessos para uma multidão. Mas o que pode explicar a influência cultural dos sons que vêm da antiga colônia, do outro lado do Atlântico, naquele país europeu tão conhecido por manter tradições? 

Quem poderá ajudar a entender isto é o produtor musical e jornalista brasileiro Hebert Neri, que vive em Portugal desde 2018. Neri concedeu entrevista para o Observatório de Música em um café do centro do Porto, norte do país. 

O músico foi uma das atrações do Festival Gerações, tem uma carreira solo com apresentações nas principais cidades do país e é integrante fixo da banda de pop rock português D’Alma, com quem já se apresentou na RTP, na SIC e na TVI, as três maiores emissoras de TV do país.
Confira a entrevista de Hebert Neri para o Observatório de Música, direto de Portugal: 

Como a música brasileira se tornou influente em Portugal?

Acredito que tudo começou com as novelas brasileiras, que são exibidas no país há quase 30 anos e trazem consigo nossa cultura, música, pronúncia e costumes.

Penso que as novelas abriram portas para os artistas e para a cultura brasileira, muito antes da explosão das redes sociais, do YouTube e da própria internet, a preparar terreno para que houvesse uma melhor aceitação do público português para a nossa produção cultural.
Hoje não é nada difícil ouvir a música brasileira na TV, nas rádios daqui. Até em romarias e festas locais vemos cantores portugueses entoando canções do Brasil. Achei incrível que no The Voice Portugal um candidato,Tiago Nacarato, chegou às semifinais cantando praticamente em sua totalidade repertório brasileiro. O candidato, embora seja português, cantava com a nossa pronúncia do Brasil. Isso mostra a influência cultural que temos e que, muitas vezes, nem nos damos conta. É surreal chegar aqui na Europa e ver que as pessoas consomem as nossas coisas, nossa música.

O que chama atenção do público europeu na nossa música?

Muitas coisas. Mas é provável, pelo que percebo aqui, que o português se encante não apenas com as cadências da nossa pronúncia do português brasileiro, mais musical, ritmada e leve, mas também com a diversidade e a riqueza da música brasileira.

Portugal, ao longo dos séculos, teve muitas influências, tanto árabes como celtas e de outros povos que vieram para a península ibérica. Tudo isso se reflete na sua música, arquitetura, arte e até mesmo na pronúncia do português europeu. Há muita riqueza em Portugal, mas menos artistas que o Brasil, por motivos óbvios. No entanto, o Brasil combina em sua música elementos que não estão presentes na música portuguesa, como a herança africana, que se pode notar mais forte no samba, no pagode, no axé e derivados. A música brasileira encanta porque é diferente. 

Somos um país de uma diversidade cultural imensa e que ocorreu em um período muito curto de tempo, o que torna nossa musicalidade única no mundo e extremamente atrativa. 

Que tipo de música vinda do Brasil faz mais sucesso em Portugal?

Todos os gêneros e ritmos são bem aceitos aqui, desde o Axé de Ivete Sangalo até ao pop rock do Capital Inicial, passando pelo pop de Anitta, o funk de Kevinho e a MPB de Caetano, Djavan, Ivan Lins e até mesmo a nova MPB de Anavitória e Tiago Iorc, por exemplo.

Sertanejo universitário e funk são dos gêneros musicais vindos do Brasil mais consumidos, mas não apenas isto. Quando artistas como Caetano e Roberto Carlos anunciam shows aqui, os ingressos esgotam rapidamente. O povo português é eclético e gosta da nossa música tanto para dançar como para apreciar uma letra mais elaborada e harmonias mais trabalhadas, típicas da nossa MPB.

A música também serve como elo entre os dois países?

Acredito também que a música brasileira é bem aceita em Portugal porque há muito mais o que nos une do que aquilo que nos separa. Não existiria Brasil se não fosse Portugal. Somos filhos desta terra e daqui herdamos o idioma, muitos costumes e muito do que somos. A música hoje é um destes elementos que nos lembram destas origens e nos unem, como irmãos que somos.
Acredito que, como reciprocidade desta abertura aos artistas brasileiros, deveria haver mais espaço para a música portuguesa no Brasil, porque há muita coisa incrível para se ouvir e apreciar. Atualmente não sai da minha playlist grupos portugueses como Ornatos Violeta, Toranja, Amália Rodrigues, Ecto Pluma, Diogo Piçarra e Salvador Sobral.  

Acredita que é uma tendência haver mais espaço para artistas brasileiros em Portugal?

Possivelmente. Apesar da pandemia do novo coronavírus, que fez com que os concertos e apresentações públicas fossem adiadas, sempre vai haver espaço para bons músicos e para os sons que vêm do outro lado do Atlântico. Temos a mesma língua, cultura e costumes em comum e uma energia muito boa nas nossas canções, que contagia a todos aqui no Velho Continente. Sei que para o Rock in Rio Lisboa 2021 já estão confirmados shows com muitos artistas brasileiros, o que mostra o quanto o mercado europeu está aberto e disposto a consumir o que produzimos.