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Desde a invenção dos sintetizadores, em meados da década de 60, tanto o mundo da música como a forma de fazer música jamais foram os mesmos. Estes instrumentos mudaram as regras do jogo, definiram o som de décadas como 80 e 90 e hoje seguem evoluindo, em um processo que nos leva em uma viagem desde os primeiros equipamentos analógicos/eletrônicos até o mundo digital, abrindo um leque de possibilidades quase infinitas. 

Em entrevista ao Observatório de Música, o músico e produtor musical brasileiro Hebert Neri, que atualmente reside em Portugal, fala um pouco sobre o papel da tecnologia na música nos dias de hoje, mais de 60 anos depois da invenção dos primeiros sintetizadores. 

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Neri, conhecido por fazer uso de sintetizadores e samples virtuais na grande maioria de suas obras, é a pessoa por trás da gravação, produção fonográfica e artística e composição de dezenas de trilhas sonoras que têm sido utilizadas em rádio, TV e até mesmo cinema, sendo responsável pela gravação do instrumental, mixagem e masterização da música ‘Forte Sou’, tema do filme Nada a Perder 2, distribuído pela Paris Filmes mundialmente.

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Confira a entrevista:

Como é o seu processo criativo? Como a tecnologia te ajuda a criar?
Quando vou compor uma trilha sonora, em especial orquestral, ter à mão samples e instrumentos virtuais que me permitam fazer uma pré produção e ter o ‘gostinho’ de como vai ficar aquele tema que eu criei é um grande auxílio. 

O meu processo criativo geralmente começa ao piano, com a melodia principal, que depois vai se abrindo em harmonias e possibilidades. Daí em diante imagino as cordas, as madeiras, metais, tudo isso se desenrolando na minha cabeça. E então entra a tecnologia: ela me ajuda a materializar, mesmo antes de ter a oportunidade de estar com os músicos, tudo aquilo que comecei a imaginar. Usando samples e instrumentos virtuais, consigo ter uma prévia de como vai ser quando gravar com instrumentos e músicos reais. Por isso, a tecnologia é uma forte aliada.
Hoje em dia, é desejável que o músico saiba pelo menos o básico de tecnologia, em especial de DAW, VST, MIDI e afins, para poder explorar o seu máximo potencial criativo, principalmente em momentos em que está sozinho.

O que torna os sintetizadores tão especiais? Como eles se encaixam na sua música?
Os sintetizadores são instrumentos fantásticos, que seguem evoluindo a cada dia, de maneira surpreendente. Com eles é possível simular instrumentos reais com cada vez mais perfeição, além de criar instrumentos novos, que não existiam até então, como synths, leads, mono bass e pads. A síntese sonora mudou não apenas o mundo da música mas ajudou a moldar a cultura pop mundial.

Sou um aficcionado por sintetizadores analógicos como o Jupiter 8, Juno106, Prophet 5, Minimoog Model D, OB-6, DX-7, D-50 e tantos outros, mas nem sempre posso contar com eles naquele exato instante em que me aparecem as ideias. Todos esses sintetizadores clássicos, combinados com novas tecnologias, podem trazer para mim, como criativo, possibilidades imensas e praticamente inesgotáveis. 

Hoje meu set de instrumentos ideal tem como parte central o computador, conjugados através do MIDI com teclados e instrumentos físicos, como a série Stage da Nord, o Yamaha CP88, além de um controlador de teclas leves ou semi-pesadas, para fazer os lead synth. É unir o melhor dos dois mundos.

Que tecnologias mais utiliza para produzir música atualmente?
Hoje, graças à tecnologia do sampling, posso ter os sons de todos esses modelos de sintetizadores que citei, assim como muitos outros, sem precisar carregar cada um deles comigo quando vou a um estúdio gravar ou até mesmo tocar ao vivo. Basta ter um computador, uma interface de áudio e um bom controlador, com boas teclas e bom mecanismo. Com esse kit, tenho condições de produzir todo tipo de música. 

Depois que descobri o mundo dos VSTs, minha vida mudou. Meus horizontes musicais se expandiram e nunca mais foram os mesmos. Entre os softwares e bibliotecas que mais uso estão a Red Pianos, que tem criado produtos que me acompanham em diversas situações, como o Red Pianos Gold e Black Knob Edition, e o Sustain Pads da IBN Samples. Também uso bastante o Sylenth1, o Omnisphere, da Spectrasonics, e bibliotecas para Kontakt da Native Instruments, como The Maverick, The Giant e The Grandeur, além de diversos timbres nativos do MainStage (EXS24, RetroSyn, Alchemy) e bibliotecas de cordas da Spitfire Audio, só para citar alguns dos principais VSTs que uso.

Como DAW (Digital Audio Workstation), tenho utilizado softwares como o Logic Pro X, o Ableton, o FL Studio e o Pro Tools, para fazer a gravação e mixagem das minhas obras, atuando mais especificamente na parte de engenharia de áudio também, além do lado criativo. 

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Para onde você vislumbra que essa tecnologia de instrumentos digitais e virtuais evolua? Qual o próximo passo?
Tudo que temos hoje em relação à síntese sonora é herança direta dos sintetizadores analógicos, do que aprendemos com eles. A evolução disto foi o workstation, que usa amostras de instrumentos reais convertidas em formatos digitais, o que chamamos de samples. Agora, depois de criarmos workstations totalmente digitais, o futuro parece apontar para a modelagem física (Physical Audio Modeling), que consegue reproduzir sons de instrumentos sem precisar de amostras sonoras, sem a necessidade de uma biblioteca com gigabytes de tamanho, usando apenas algoritmos para gerar o formato de onda correspondente àquele timbre, ainda respondendo de forma dinâmica ao toque e à execução do músico no teclado.

Fabricantes como a SWAM e a Pianoteq são das que estão mais à frente neste quesito, proporcionando ao músico sons de instrumentos de sopro, cordas e tecla percutida que impressionam na forma como respondem ao toque e nos detalhes. Tenho feito algumas experiências com instrumentos virtuais deste tipo e o resultado sempre me surpreende. Se eu tivesse que apostar, diria que esse pode ser que este seja mesmo o futuro no que diz respeito à tecnologia aplicada na música.   

Acha que os samples e os sintetizadores vão substituir músicos reais em definitivo?
Certamente não. Acredito que a tecnologia digital e os sintetizadores vieram para agregar, somar, não destruir e destituir. Sim, é fato que hoje diversas produções, inclusive boa parte das trilhas sonoras que compus, eu mesmo gravei os instrumentos, simulando desde baterias acústicas até violoncelos, violinos e metais. No entanto, na maioria das vezes essas escolhas se dão mais por questões mercadológicas, logísticas e de orçamento disponível para aquele projeto do que preferência.

Nada irá substituir o músico nem o instrumento real, por mais perfeito que seja o sample ou a emulação. Samples e todo o aparato tecnológico podem vir a calhar numa necessidade ou para uma gravação, já que estão cada vez mais convincentes e realistas, mas não irão substituir os músicos. Quando um músico toca um instrumento, aquele equipamento reage ao músico, responde a ele, interage com ele e com a forma que ele tange o instrumento, com a energia aplicada, tornando-se algo único. Por isso bons músicos nunca serão trocados por um computador e bons músicos continuam a ser contratados para tocar, às vezes tendo de cruzar literalmente o mundo para se apresentarem.

O que temos hoje é a conjunção do digital e eletrônico com o real e acústico, acontecendo inclusive ao vivo, quando uma banda toca com máquinas pré gravadas em estúdio, o chamado VS ou multitrack, mas isso no intuito de trazer mais som e mais elementos à performances ao vivo.

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