johnny hooker
O cantor recifense Johnny Hooker (FOTO: Reprodução)

O Observatório de Música bateu um papo com Johnny Hooker sobre as novidades que ele prepara para 2020. Confira abaixo:

Johnny, eu gostaria que você me contasse um pouco sobre o seu início na música, passando pelo sucesso de “Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!” e o teu atual disco “Coração”, pode ser ?

Johnny Hooker: “Eu já passei por muitas fases. Nos anos 2000, a grande moda era o rock. Se você sentia a necessidade de ir contra o sistema, se você não fazia parte dos demais, a sua tribo era o rock, entende? A minha geração foi muito marcada pela MTV, nós escutávamos muita coisa em ingles, e muito rock consequentemente. Eu comecei a cantando em “lugares obscuros” em Recife, deu bem certo porque nós fizemos vários festivais. Inclusive, minha empresária que está aqui com a gente, me conheceu nessa época num festival chamada “Garagem” lá de Recife”.

Quanto tempo você ficou produzindo o primeiro álbum? O quanto todas essas suas vivências lhe ajudaram a compor os seus discos ?

Johnny Hooker: “Olha, eu acho que tudo, sabe. Eu acho que tudo! Recife me inspirou muito, os meus primeiros 21 anos foram vividos em Recife. As musicas do “Macumba” por exemplo, algumas foram escritas em 2005, exatamente 10 anos de seu lançamento. O meu primeiro álbum fala muito de Recife. Fora isso teve a minha participação na trilha sonora de “Tatuagem”, eu ganhei um papel na novela da Globo graças ao sucesso do filme nos festivais e eles queriam algum ator de Recife, também”.

“Alma Sebosa” fora o seu primeiro single, Johnny ? Por que eu acho que esta é a sua maior marca, não ?

Johnny Hooker: “Na verdade, “Volta” já estava bombando em Recife graças ao “Tatuagem”, o povo de lá entrava nas salas de cinema cantando a música, eu acho que “Alma Sebosa” foi aquela que ganhou espaço na TV sem estar em trilhas sonoras, digamos assim”.

Quem foi o homem que lhe fez escrever, Macumba? Foi um homem? Eu sei que você compõe não apenas sobre fatos vivenciados mas também de contos de amigos e etc, né?

Johnny Hooker: “Não, sabe. Não foi um homem. Foram vários homens. Mas na realidade, não são homens que participaram de minha vida como relacionamento, entende. Eu sei que as pessoas sentem a necessidade de que as minhas composições sejam todas reais pois isto “valida” o ouvir, valida todo o sentimento e tal, enfim. Eu leio muito no Twitter o seguinte: “Eu preciso que o Johnny tenha um relacionamento horrível de novo pra escrever um novo disco”. Depois do primeiro disco, não quer dizer que eu não estivesse sofrendo ao lançar o “Coração”, entende. É que eu já havia falado muito sobre essa tristeza e sofrida. Eu sentia a necessidade de falar sobre a vitória do amor, e fiz “Flutua”.

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– Você realmente mudou bastante de um disco para o outro…

Johnny Hooker: “Eu sou um artista que gosta de fazer o diferente, eu sinto a necessidade de entregar um trabalho diferente do que eu já fiz antes. Se você pegar minhas referências, por exemplo: David Bowie, Caetano Veloso, Madonna… todos eles usam um novo personagem e utilizam uma nova narrativa a cada fase, a cada era e disco, né. Por que assim, existem alguns artistas que eu amo muito também mas os lançamentos são sempre parecidos, é a mesma coisa…”

-Eles utilizam aquela mesma fórmula para tocar na rádio, certo ?

Sim, eu acho que tem que ousar! (risos)


– Macumba é uma álbum de revolta, um álbum que fala da sofrência por um termino de amor, em contrapartida Coração fala da aceitação do luto e a vitoria de iniciar uma nova fase, não ? A gente consegue dividi-los em algo como o Johnny antes e depois da terapia ? (risos)

Não, (risos). Ah, não e sim, na verdade. Eu diria mais maduro. Mas, assim, quando eu estava fazendo o “Coração”, que é um álbum mais solar mais ao mesmo tempo também fala de problemas pessoais, eu estava passando por uma depressão, eu estava sofrendo por vários fatores de minha vida e quando eu escrevi o “Macumba”, eu estava ótimo, super tranquilo (risos)”.

-Engraçado, né ? Pra quem é ouvinte, a impressão é exatamente a oposta…

“Mas é assim, eu precisava daquela resistência. Eu acho que a grande diferença entre os meus dois discos é que após o “Eu Vou Fazer Uma macumba Pra Te Amarrar, Maldito!”, a gente já tinha rodada o país, pudemos conhecer o mundo, então isso abriu meus olhos, abriu os meus horizontes e ao lançar o “Coração”, eu me agarrei nessa força também. E quando eu lancei o segundo álbum, devido ao golpe, as manifestações em 2016 e tudo mais, eu senti a necessidade de falar da América Latina. E fato de o álbum se chamar “Coração” é devido à America Latina, pois o formato da América Latina para mim, me lembra um coração. Fora isso, quando lancei o meu primeiro CD, eu era muito jovem, eu ainda era imaturo, não que eu seja o homem mais maduro do mundo mas eu cresci um pouco, né. (risos)”.


– Ate então nós só conhecemos “ Escolheu a Pessoa Errada Para humilhar” do terceiro CD. E me parece que você vai ser uma gótica revoltada mais uma vez? É isso ?

Olha, talvez ele nem entre pro terceiro disco pois no meio do caminho o artista muda a concepção do disco, a coesão e a vontade do que ele deseja falar, sabe. Vamos ver isso aí”.

-O terceiro álbum sai neste ano ?

Nós estamos prevendo que sim, mas não posso lhe garantir nada ainda. Vamos com calma! (risos)

-O primeiro disco fora completamente solo, digamos assim, e em “Coração” tivemos Gaby Amarantos e Liniker, e desta vez saem mais feats. ?

Olha, não é nada que eu possa adiantar mas terão participações bem especiais na verdade. Tem que ser surpresa!

-Fora isso, o que você pode nos contar sobre o seu próximo álbum?

Ele é inspirado num livro chamado “Orgia: os diários de Tulio Carella, Recife, 1960”. Ele conta a história deste dramaturgo que fora pra Recife em 1960 para dar aula e acabou se apaixonando por Recife, pelos homens homens de Recife, pela liberdade sexual que existe na cidade…

-E você se identificou com isso devido à sua mudança pra São Paulo, certo ?

“Exatamente, exatamente! Eu traço um paralelo da minha mudança para São Paulo e o que acontece no livro. Quando Tulio Carella fora pra Recife, a caça ao comunismo, a caça as liberdades e diversidades começavam a tomar força, sabe”.

-Você diria que é um tanto quanto parecido com o que vivemos hoje, então ?

Sim, um tanto quanto parecido. É como se eu conversasse com ele através do tempo pra conseguir entender essa loucura que nós vivemos hoje. O meu terceiro álbum é mais triste como o “Macumba” mas também fala muito sobre resistência assim como o “Coração”. Ele é mais sombrio no tom geral, mas nós vamos falar muito sobre o fato do fascismo e o autoritarismo sempre atacarem primeiro a liberdade. E nós vamos dizer que iremos resistir, sim! A gente vai falar de sexo, a gente vai falar do quanto a música, o corpo e a dança podem ser armar para lutar contra o autoritarismo”.