Bob Dylan (Reprodução: Internet)

O lendário cantor compositor norte-americano Bob Dylan completou 79 anos neste domingo, e o perfil @urublog do escritor Arthur Muhlenberg decidiu contar através de uma série de tuítes uma história íntima sobre a passagem do astro pelo Rio de Janeiro em 1990. Toda a história começa com o artista que já recebeu um prêmio Nobel da Literatura num bar de Copacabana e termina numa sessão secreta de improviso com músicos locais. Confira o relato abaixo:

“Em 1990 Bob Dylan veio tocar no Holywood Rock. Ele se hospedou em Copacabana e curtia dar uns rolés pelas ruas do bairro. Numa noite ele escolheu o Bolero, tradicional bar/boite/inferninho da Atlântica pra se sentar e ver o movimento”.

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“Minha amiga (e cliente) Katherine Hilliard, que trabalhava na sucursal Rio da Time, estava no bar naquela hora. Grande fã de Dylan, Katherine se apresentou e Dylan, para surpresa de todos, a convidou a compartilhar a mesa que ocupava com seu produtor”.

Bob Dylan em Copacabana no ano de 2012 (FOTO: Trabalho Sujo)

O papo rolava entre a fã e o ídolo quando apareceram aqueles malandros tocando pagode pros turistas. Dylan ficou amarradão, ouvindo com extrema atenção o que estava sendo tocado. Disse que estava especialmente bolado com a percussão”.

Perguntou à Katherine se ela podia o ajudar a gravar com músicos brasileiros que faziam aquele som. A amiga disse que não manjava daquilo mas que conhecia alguém. I know a guy who knows a guy. Naqueles tempos pré-celular as pessoas precisavam ir até o caixa do restaurante e pedir pra usar o telefone pra poder falar com alguém que não estava presente. Era bizarro. Bem, Katherine fez esse circuito e me ligou”.

Me contou a historia, que eu demorei um pouco pra acreditar, achei que ela tava doidona, e me convocou pra ir imediatamente ao Bolero. Devo ter percorrido a distância Alto Leblon-Lido em menos de 15 minutos”

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(FOTO: Reprodução)

“Chego lá, fico totalmente abobado na presença magnética de Dylan e nem pude me sentar. Eles já estavam indo embora. O homem me cumprimentou com um aceno de cabeça e o produtor dele começou a me dar as instruções do que o Bob queria. Tudo muito show business”.

Eu não era produtor musical, era redator numa agência de propaganda, mas tinha alguma experiência e alguns contatos entre músicos. Mas é óbvio que menti dizendo na caradura que era produtor musical fulltime e muito experiente. Combinamos o meu cachet (US$ 2k) e eles saíram fora“.

Bob queria se reunir com percussionistas para gravar umas fitas, o que demandava um estúdio profissional e arregimentar os músicos. Liguei pra um conhecido, o percussionista Leo Leobons, pra me ajudar a juntar a galera. Se não fosse o Leo a gig não rolaria“.

Bob Dylan passeia por Copacabana, no Rio de Janeiro, em 2012
Bob Dylan em Copacabana no ano de 2012 (FOTO: Nana Tucci)

Nesse meio tempo Bob Dylan deu um perdido em toda a imprensa carioca que estava atrás dele. Em segredo ele foi pra uma pousada em Itaipava e só reapareceu pra fazer essa jam, que rolou no Tok estúdios, do Chico Batera, que ficava na São Clemente, na frente do Metrô”.

No dia marcado estava todo mundo lá, menos o Bob. Geral esperando o cara chegar e o produtor do Bob disse como ia ser o negócio. Bob não queria que ninguém falasse com ele e nem tirasse fotos. O estúdio teria que ficar fechado, ninguém entrava. Beleza, vamos em frente“.

“Bob chegou, deu um alô geral pra rapaziada, pegou o aço e começou a tocar. Leobons foi fulcral nesse processo, era o único dos músicos que falava inglês e começou a trocar ideia com Dylan e a coisa começou a fluir. Nada de canto, só levadas de viola e batuque feroz”.

Ana Tucci/AE
Bob Dylan em Copacabana no ano de 2012 (FOTO: Estado de SP)

A gig levou horas, eu fiquei lá de esparro geral, providenciando comida, bebida e cigarros. E conversando com o personal trainer do Dylan, um cara que ostentava um titulo bizarro: era o boxeador recordista de nocautes no mundo. Isto e, era o boxeador mais nocauteado do mundo“.

“A umas tantas horas da noite o porteiro do estúdio me chama na porta. Tinha um gringo querendo entrar e ninguém entendia o que ele tava falando. La fui eu pro desenrole. Falo com o gringo e digo que Bob tinha determinado que ninguém podia entrar”.

“O gringo, muito educado, me pede pra fazer o favor de avisar ao Bob que ele estava na porta. Eu concordei, perguntei o nome do cara. Aí a humilhação. Era o Dave Stewart do Eurythmics e eu não o tinha reconhecido. Que mancada! Lógico que era pra ele entrar, o Bob tinha convidado”.

Gafe contornada, Dave se junta ao grupo, nego ficou tocando lá um tempão até o fim da session. Alguns músicos quebraram a regra e pediram fotos com Bob, ele tirou numa super boa e foi simpaticão com todos. Eu não tinha levado máquina, fiquei na inveja”.

“O produtor pediu os rolos de fita, me deu a grana pra pagar a galera (um envelope recheado de verdinhas) e fim do sonho. Fui honestão e não fiz nenhuma cópia do que foi gravado. Bob foi pro hotel, no dia seguinte deu um showzaço na Apoteose. Fim do conto de fadas”.

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(FOTO: Reprodução)

Apesar do orgulho infinito de ter participado marginalmente desse evento musical, não costumo explanar essa história. Porque quando eu conto quase ninguém acredita. Mas como hoje é aniversário do Dylan, vale a confissão“.

Você pode conferir o relato pessoal do escritor através da thread a partir do seguinte tuíte abaixo: