john lennon
O cantor John Lennon (FOTO: Reprodução)

Em 8 de dezembro de 1980, o ex-vocalista dos BeatlesJohn Lennon foi brutalmente assassinado por um fã. Entretanto, o que pouco se sabe, é que naquela segunda-feira, uma testemunha teria presenciado tudo. Por William Helal Filho, do Globo.

Já havia passado das 22h quando John Lennon e Yoko Ono deixaram o estúdio Record Plant, em Nova York. Eles iriam jantar fora, mas o inglês de 40 anos quis passar em casa antes, pra dar “boa noite” ao filho, Sean, de 5 anos. Às 22h40, o casal saiu da limusine diante do edifício Dakota, onde moravam, ao lado do Central Park. A artista japonesa se dirigiu ao portão em forma de arco na entrada do prédio, passando por um vulto que estava ali parado. Era David Chapman, o mesmo cara que pediu um autógrafo a John quando os dois saíram de casa para o estúdio, por volta das 17h. Chapman esperou até que o ex-Beatle passasse também e disparou quatro tiros de calibre 38 nas costas de John, a três metros de distância.

Naquele instante, o então estudante universitário Sean Strub, de 22 anos, andava com dois amigos na Avenida Central Park West. Estavam saindo do cinema. Ao ouvir os estampidos, Strub achou que se tratava do escapamento de um carro. Mas, ao virar na Rua 72, percebeu que algo trágico tinha acontecido quando viu um grupo de pessoas falando alto e chorando na calçada diante do Dakota. O americano chegou à cena do crime junto com um carro da polícia, que surgiu em alta velocidade. Ele percebeu que alguém havia sido baleado, mas não sabia quem era a vítima.

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– Entendi o que realmente tinha acontecido quando vi um policial inclinado sobre Lennon no chão, tentando fazê-lo reagir, perguntando várias vezes: “O seu nome é John Lennon?!?”. Foi quando perecebi que a mulher angustiada ao lado deles era Yoko. Uma cena horrível – conta Sean Strub, em entrevista ao Blog do Acervo, quase 40 anos após o crime, ocorrido em 8 de dezembro de 1980. – Um policial gritou para o outro: “Não podemos esperar a ambulância, ele não vai sobreviver, segura as pernas dele”. Eles o colocaram no banco de trás da viatura. Enquanto carregavam John, o sangue jorrava dos ferimentos no peito.

Hoje escritor e ativista, diretor de uma ONG nacional que trabalha pelo direito das pessoas com HIV/Aids nos Estados Unidos, Sean foi testemunha do asssassinato mais traumatizante da cultura pop no século XX. Ex-fundador dos Beatles, Lennon poderia estar completando 80 anos nesta sexta-feira, se não tivesse sido morto covardemente por Chapman naquela noite. Três dos quatro tiros atravessaram o corpo do artista causando grandes estragos, enquanto uma bala ficou alojada em sua artéria aorta, ao lado do coração. Os projéteis usados tinham pontas ocas, que causam muito mais danos que as convencionais. Levado às pressas para o Hospital Roosevelt, os médicos abriram o peito do músico e massagearam seu coração com as mãos, mas sem êxito. Ele foi pronunciado morto às 23h15.

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Assim que chegou ao suntuoso edifício Dakota, Strub viu o assassino parado tranquilamente, na cena do crime, antes de ser levado preso.
– Ele estava apoiado com as costas e um pé na parede da passagem entre a calçada e o pátio interno do prédio. Tinha um sorriso pretensioso no rosto, como um gato que devorou o canário, por assim dizer. Não aparentava remorso. Estava talvez a 12 metros de distância de Lennon – descreve o ativista, que passou semanas após o crime dando entrevistas. – Hoje sei que fiquei em estado de semichoque por bastante tempo. Não conseguia me concentrar, estava obcecado por notícias de violência e me tornando ainda mais revoltado com políticos que se opunham ao controle de armas. Nunca mais voltei para a faculdade.

A notícia sobre a morte de Lennon causou ondas de comoção no mundo. Não apenas por se tratar de um dos maiores artistas de todos os tempos, mas também pelas circunstâncias do crime, que iam sendo divulgadas pela imprensa ao longo dos dias. Uma grande aflição era entender as motivações de Chapman, um homem de 25 anos com claros distúrbios mentais. Depois de disparar contra o ex-Beatle, o assassino jogou seu revólver Charter Arms no chão e tirou o casaco, permanecendo parado com uma cópia do livro “Apanhador no campo de centeio”, de JD Sallinger, no qual ele havia escrito: “Este é meu manifesto”. Depois de tentar socorrer John, o porteiro Jose Perdomo viu Chapman ali parado e gritou: “Você sabe o que você fez?!?”, ao que o criminoso respondeu: “Sim, eu acabei de atirar em John Lennon”.

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Cumprindo a pena de prisão perpétua numa penitenciária de segurança máxima desde o assassinato, Chapman já deu algumas explicações para tentar justificar o que fez. Nascido no estado americano do Texas, ele havia sido muito fã de Lennon, mas se voltou contra o artista depois de se tornar um religioso fanático, que criticava John, principalmente, por uma famosa declaração de 1966, quando o compositor disse que os Beatles eram “mais famosos do que Jesus”. Durante seu julgamento, ele se declarou culpado afirmando que aquela era “a vontade de Deus”. Hoje aos 65 anos, Chapman já pediu perdão pelo crime em mais de uma ocasião. No último mês de agosto, ele teve um pedido de liberdade condicional negado pela 11ª vez.

Houve muita tristeza no mundo após a morte de Lennon. Milhares de pessoas tomaram as ruas para realizar vigílias em cidades como Nova York, Liverpool e Rio. “É uma tragédia pior do que você pensa: é o último sinal de que nossa geração passou”, disse uma moça em Manhattan, chorando, segundo a edição do GLOBO de 10 de dezembro de 1980. “De repente me sinto velho, vivendo em outros tempos”, afirmou um professor de Literatura. Pelo menos três fãs chegaram ao extremo de cometer suicídio ao longo dos dias seguintes, o que levou Yoko Ono a fazer uma declaração pública, pedindo às pessoas que não se entregassem ao desespero.

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Cardeal-arcebispo do Rio em 1980, Dom Eugênio Araújo Salles deu ao GLOBO a seguinte declaração sobre a execução do artista:
“Lamento profundamente a morte desse ser humano, mas noste momento é bom lembrar talvez que o mundo tenha se esquecido do grupo dele. Este mesmo grupo chegou a anunciar ao mundo que era mais conhecido que Jesus Cristo”.

Diretor da ONG Sero Project, o autor e ativista Sean Strub conta que só mais tarde entendeu o quanto a noite daquela segunda-feira, há quase 40 anos, marcou sua vida para sempre. Ele escreveu um pouco sobre isso em seu livro, “Contagem de corpos: Uma memória de política, sexo, AIDS e sobrevivência” (2014). O americano nascido em Iowa, que tinha se mudado para Nova York um ano antes, para estudar na Universidade Columbia, hoje entende que presenciar aquele episódio de violência o traumatizou muito mais do que ele pensava, na época do crime.
– Testemunhar aquela brutalidade e a angústia imposta à mulher que ele amava, aos seus familiares, aos fãs e ao mundo moldou minha perspectiva sobre a violência, a mortalidade e a preciosidade de todos os momentos que temos – analisa Strub. – Foi naquele outono (do Hemisfério Norte) que eu contraí o HIV (sem saber), e a epidemia de Aids sequestrou minha vida para eu me tornar um ativista. Ver de tão perto a morte de um homem jovem, um artista no auge da sua criatividade, me forneceu um contexto doloroso para todas as outras mortes que eu veria nos anos seguintes.

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