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A cantora norte-americana Kesha (FOTO: Reprodução)

A cantora Kesha viveu o ápice de sua carreira em 2016 ao se envolver em uma grande polêmica. Sua imagem chorando no tribunal após perder o julgamento contra sua gravadora e produtor acabou de repente com a alegria mostrada até então no cenário pop. O juiz não acreditou que a cantora tivesse sido estuprada pelo homem que está por trás de suas músicas, Dr. Luke, nem que tinha sido abusada psicologicamente, e decretou que ela deveria cumprir um contrato de mais seis álbuns com a empresa.

Com 28 anos na época, Kesha protagonizou uma história com detalhes demais para não despertar curiosidade. Sexo, drogas, distúrbios alimentares e o debate sobre o feminismo na sociedade e em uma indústria, a do entretenimento, ainda mandada por homens. Também assumiu o lado mais obscuro das máquinas de sucesso, que por vezes mostra seus artistas dizendo sentirem-se como marionetes nas mãos dos responsáveis por um produto milionário. Isso aconteceu anos atrás com Prince, que precisou trocar de nome para continuar com sua carreira. O caso de Kesha tem um ingrediente a mais. A artista lançou um single de sucesso em 2009 e fez colaborações com outros grandes cantores que ficaram marcados, mas sua atividade ao longo de sete anos não foi suficiente, em quantidade e conquistas. A tragédia que afetou sua imagem pública teve em 2016 mais peso do que sua contribuição artística. Muitos nem sabiam quem era ela, mas todo mundo falava de uma jovem marcada por um escândalo.

Kesha no tribunal em 2016 após receber a notícia que iria continuar na mesma gravadora (FOTO: Getty Image)

Nascida em Los Angeles, cresceu em um subúrbio de Nashville (Tennessee, EUA). Nunca conheceu seu pai, e sua mãe era uma cantora que escrevia músicas para outros artistas. Kesha conheceu os programas de assistência social e os cupons de alimentação. Na adolescência utilizou a rebeldia para sobreviver em um mundo que sempre lhe foi difícil. Cabelo roxo, bissexualidade e a música como expressão. Chegou a passar na casa de Prince para entregar-lhe uma demo porque gostaria que ele produzisse sua música. Em 2009 fechou contrato com o selo de Dr. Luke. Tinha todo o necessário para triunfar como uma nova estrela do pop, e o sucesso já aconteceu no primeiro ano. A música Tik Tok ficou em primeiro lugar em 11 países e é um dos singles digitais mais vendidos, com mais de 14 milhões de downloads. Tentou manter o status nos anos seguintes, mas não conseguiu encontrar seu lugar em uma escala cheia de cantoras iguais, e com o perfil da “rebelde e incomum” ocupado, até então, por Lady Gaga. Kesha ficou marcada como estrela de segunda linha, e isso ficou evidente em uma campanha a favor dos animais com Iggy Pop na qual fazia um dueto animado com o cantor Pitbull.

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Então, Kesha decidiu sair do eletropop das fórmulas de rádio e buscar um estilo mais voltado ao rock, mas não foi respaldada pelo selo de Luke. Em 2013 anunciou um projeto com a banda alternativa The Flaming Lips, cancelado meses depois. Muitos culparam Luke de bloqueá-lo. Ela revelou que era algo que não podia verificar e que até mesmo gostaria de liberar o conteúdo porque o dinheiro não lhe importava. A próxima notícia dizia que ela havia sido internada em uma clínica com uma grave bulimia. Vários médicos culparam Dr. Luke porque ele não suportava a independência conquistada por Kesha e suas pretensões de reconduzir a carreira. Saiu do centro médico com uma camiseta com os dizeres “sou uma sobrevivente” e, como Prince, mudou seu nome para Kesha, já que antes o ‘s’ tinha o símbolo do dólar. Era somente o princípio de uma grande confusão que nos tribunais a cantora revelou que Luke supostamente drogava e embebedava mulheres para estuprá-las depois e que obrigou sua mulher a abortar. Na acusação ela disse que ele ameaçava arruiná-la e que a humilhava ridicularizando sua aparência e talento, sempre exercendo um controle psicológico sobre ela. Tudo para conseguir renegociar seu contrato com ele, e durante 10 anos.

Entretanto, o juiz acreditou na versão do produtor. Eles voltaram a se encontrar logo depois, em um caso que, nas palavras de Kesha, nunca foi por um rompimento de contrato, mas por sua luta em se afastar de um homem que ela afirma que a assombrava. Após a sentença, a Sony permitiu a Kesha poderia trabalhar com outros produtores. Ela respondeu no Facebook: “Expresso minha vontade de cumprir o contrato com a multinacional se forem corretos e romperem todos os vínculos que me ligam ao meu abusador”. Uma mensagem encerrada com agradecimentos aos seus colegas do meio musical, principalmente mulheres, dentre elas, Taylor Swift que a ajudou com 250 mil dólares, junto com milhares de anônimos que mostraram seu apoio nas redes sociais. “Só quero fazer música sem ter medo, sem que me assediem, sem sofrer abusos”, finalizou.