Tradutora da live de Marília Mendonça explica dancinha: “Por que fazer igual robô?”

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Gessilma Dias de 45 anos, era fã de Marília Mendonça e nunca havia trabalhado como intérprete de Libras (Língua Brasileira de Sinais) num evento dessa magnitude. Na noite desta quarta-feira (08), a fonoaudióloga ficou por mais de três horas traduzindo os hits da rainha da sofrência para a língua usada por surdos, numa transmissão no YouTube que até o momento tem mais de 46 milhões de visualizações em seu canal oficial.

“Não estou conseguindo processar o que está acontecendo”, ela fala no telefone, ao saber dos vários memes e elogios ao seu trabalho na web.

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A goianiense
aos 17 anos de idade convidou duas vizinhas surdas para um culto. As amigas não
entenderam nada, já que não tinha ali um intérprete de libras.

“Elas
faziam cara de paisagem e fiquei envergonhada por elas não conseguirem
entender, então fui procurar curso de Libras”.

Se formou em
1997, em Fonoaudiologia pela Universidade Católica de Goiás. Gessilma foi
convidada, dois anos depois, pela secretaria de Educação de Goiás, para
integrar o programa de atendimento à diversidade, onde os alunos com deficiência
teriam professores capacitados para atendê-los nas escolas. Alunos da quinta à
oitava série eram auxiliados por ela.  

“Como
tinham poucos profissionais, fazia trabalho itinerante, de sala em sala. E
tinha muito aluno surdo”.

A fonoaudióloga trabalha ainda em um centro de capacitação, para formais novos profissionais, e mesmo de quarentena, as aulas tem acontecido pela internet.

Reprodução: Arquivo pessoal

Com trabalho em escola, Gessilma atuava algumas vezes em peças teatrais, mas em show, foi a primeira vez e teve pouquíssimo tempo para se preparar. A senhora conta que uma pessoa da produção de Marília Mendonça ligou um dia antes da live, realizando o convite, mas não soube como chegaram até ela. Tem um palpite:

“Alguém conseguiu meu telefone e passou para a produção. Tenho 20 anos de trabalho, não são 20 dias. Então é um histórico. E um trabalho desse nível não é fácil. Mas onde fala que precisa de intérprete, nem pergunto. Simplesmente vou, porque ninguém lembra que essas pessoas precisam”.

Aceitou o
convite na mesma hora e se preparou para a transmissão, pois sabia que seria
somente ela e outro intérprete, Viny Batista, para mais de três horas de show:

“O ideal era uma equipe de pelo menos seis profissionais trabalhando, pra gente se revezar. E foram 52 músicas. Virei a noite estudando, busquei pessoas surdas para me ajudar nesse estudo. Não dá pra fazer da cabeça da gente. Não podia fazer um trabalho mais ou menos. Mesmo assim houve falhas, a gente se perdeu em algumas coisas, mas foi a melhor forma que podíamos fazer. Ninguém pensou nisso até agora, e fico feliz pela Marília ter esse olhar”.

Gessilma se declarou fã de Marília Mendonça e isso fez com que tornasse tranquilo o trabalho. “Gosto muito dela. Acho que ela conta a história da gente mesmo”. Apesar da alegria, ela tem outra resposta para as danças animadas.

“O
surdo tem que entender a diferença entre um Jornal Nacional para um show
artístico. Se estou dando notícia sobre a pandemia, preciso estar séria, mas se
estou num show, todo mundo está se divertindo. Por que tenho que fazer tradução
igual a um robô? As expressões manuais são parte da língua se sinais e tem que
incorporar mesmo”, ela esclarece.

Toda a live
foi festa dentro do estúdio da cantora, mas elas não tiveram muita aproximação.
“A gente se viu de longe e não pôde fazer foto, sentar pra conversar. No
fim, fomos lanchar e ela agradeceu o trabalho”.

Gessilma falou
sobre seu isolamento social: “Minha mãe está com câncer e, no início da
quarentena, teve que interromper a quimioterapia e está isolada em casa, no
Mato Grosso, tomando 16 comprimidos por dia”, lamenta.

Apesar dos
contrapontos, Gessilma ressaltou: “A gente já tem muito problema na vida,
e se ficar ressaltando só as dificuldades, não vamos passar por ela”, encerrou.

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